Parte II

YOSHI INVISÍVEL

oatorinvisivel.jpg”O ator Invisível” é o livro que nos transforma como artistas e seres humanos. Já com mais experiência, Yoshi compartilha com o leitor muitas histórias sobre ética, honra e disciplina. Oida nos dá a oportunidade de conhecer mitos e lendas sobre Samurais, técnicas sobre a cerimônia do chá e lindas tradições sobre mestre e discípulo. A partir dessas historietas, Yoshi nos leva a um mundo imaginário fantástico e nos mostra outras possibilidades diante da vida e do trabalho de ator. Há uma lenda, em particular que me emociona profundamente toda vez que a leio:

”Existe uma história sobre dois samurais que viveram muitos séculos atrás. Eram grandes amigos, mas seu senhor feudal mandou-os a duas regiões diferentes. Eles sabiam que dificilmente se encontrariam novamente e ficaram entristecidos com a partida. Para preservar a amizade fizeram um pacto. Num determinado momento do ano eles se encontrariam de novo, no mesmo lugar, exatamente à mesma hora. E assim se separaram.

Trabalharam pesado, de modo que o ano passou rapidamente. Um dos samurais foi até o lugar combinado na data e hora marcadas. Esperou um pouquinho e depois começou a ficar preocupado. O que poderia ter acontecido? Será que seu amigo havia se esquecido da promessa?Mas depois de alguns minutos, alguém bateu à sua porta. Ele abriu e encontrou o amigo.

O amigo estava muito pálido e começou a se justificar, explicando que tinha estado muito ocupado, e não conseguira chegar na hora certa. Continuou a se desculpar, dizendo que ainda tinha muito o que fazer e não poderia ficar mais tempo. Explicou que não queria quebrar sua promessa, de modo que tinha vindo, mas apenas por uns minutos. Com uma justificativa final para a brevidade da visita, partiu.

O outro samurai ficou muito decepcionado e voltou para a casa sozinho. Uma semana mais tarde, recebeu uma carta do amigo que dizia:

“Gostaria de lhe pedir desculpas. Tenho trabalhado muito e como conseqüência, perdi completamente a noção do tempo. De repente me dei conta de que hoje era o dia que tínhamos marcado de nos encontrar para renovar a nossa amizade. Mas a distância entre nosso ponto de encontro e o lugar em que eu estava correspondia a uma jornada de no mínimo três dias. Percebi que seria muito tarde. Então estive pensando que o espírito poderia viajar mais rápido do que o corpo, de modo que matei meu corpo. Desse jeito , espero chegar a nosso encontro na hora certa para vê-lo conforma prometido”

O samurai então se deu conta de que fora o espírito de seu amigo que vinha e partido tão repentinamente. E o espírito de seu amigo encontrara um meio de cumprir aquilo que era impossível para o corpo(…) (Oida, yoshi “O ator Invisível”p118,119).

“Um ator invisível” é um livro que nos permite conhecer mais a fundo todas as técnicas e influencias da arte japonesa na vida de Yoshi, e através delas conhecer melhor este fantástico artista. Os conceitos sobre o Hara, o jô-há-kyu, os nove orifícios,os cuidados com cada parte dos nossos instrumentos(corpo, fala e interpretação) são exemplificados com mais aprofundamento. Ele dá dicas de concentração e exercícios para cada instrumento, em específico.

Por exemplo:

“(…)Vamos ficar em pé, com os pés afastados, mantendo a mesma distância da largura dos ombros. Vamos então tentar imaginar que nossa pele é como um saco plástico. Dentro deste saco, há somente água. Nada de cérebro, nem coração, nem estômago, apenas água…transparente, cristalina. Sem fechar os olhos, olhamos a água. Por fim, começa, começa a haver o movimento. Para a frente, para a direita, para a esquerda, para trás. Trata-se de um belo e suave movimento, apenas como a água é. Num determinado momento, quando já estivermos estabelecido um sentido claro de como é o corpo sendo água, tentemos sentir a gravidade da terra. Uma força vem do centro da terra e nos convida a descer; para baixo, para baixo, porém nossa carne permanece água. Nossa cabeça fica pesada, nossos ombros pesados devido à força da gravidade. Gradualmente baixamos na direção do chão até ficarmos de cócoras, com a cabeça e os braços relaxados. Então imaginem que existem três fios que ligam nosso corpo com o céu. Um desses fios está preso no topo de nosso crânio, e os outros dois estão conectados aos pulsos. Esses três fios começam a nos puxar para cima, na direção do céu, até que nos sentimos eretos, em pé novamente, com os braços suspensos no ar como se esse saco de água estivesse pairando no ar. Então mais uma vez sentimos puxar da gravidade da terra, os fios desaparecem e nossos braços e a cabeça abaixam, sendo seguidos por todo o resto do corpo. Continuamos esse exercício, nos movimentando constantemente entre o céu e a terra, enquanto o corpo permanece água. Conforme repetimos , o movimento gradualmente de torna mais rápido. Para terminar, esqueçamos os fios conectados aos pulsos; agora há apenas um fio, aquele que está preso ao topo da cabeça. Vamos manter o movimento da subida e descida por um momento, sem qualquer esforço, e depois diminuir gradativamente até parar na posição vertical. Sentimo-nos como se estivéssemos suspensos e equilibrados entre as duas forças do céu e da terra.(.) (Oida, yoshi“O ator Invisível”.p 42,43)”

Ambos os livros têm muito a acrescentar na vida de um ator , porém, “Um ator errante” tem ares de romance e pode interessar a qualquer leitor sensível que goste de uma biografiabem escrita. “O ator Invisível” , eu diria que serve mais a atores, diretores e estudantes de teatro, pelo aprofundamento das técnicas mostradas por Oida. Um ator mais experiente conseguirá assimilar melhor as dicas e técnicas e conseqüentemente irá aproveitá-las melhor.

“O ator invisível é um manual necessário e muito útil. Neste livro , Yoshi fala sobre a preparação do espaço de ensaio , a preparação do corpo (limpeza) para os treinamentos, a importância da prática, o movimento( o caminhar e a ligação com o hara), a interpretação e o conceito de interno e externo (influencia direta do teatro japonês)

Exemplo:

”(…)Equilibrar o movimento interno com a atividade externa é uma tarefa delicada, porem , se realizada habilmente dará um rumo incomum e interessante a nosso trabalho. Por exemplo, digamos que a ação no palco seja muito violenta e apaixonada. Se internamente o estado for o mesmo, a atuação poderá parecer tensa demais. Neste caso , mantemos a parte interna bem tranqüila. Se , ao contrário , estivermos interpretando um sujeito calmo ou entediante, e nosso interior estiver no mesmo estado, correremos um alto risco de que a interpretação seja extremamente insípida…Idealmente , o interno e o externo devem ser contraditórios(…).

Falando ainda de interpretação, Oida exemplifica o conceito de Jô-há-kyu, a energia humana, a auto-observação, a contradição corpo x emoção e a relação entre os atores e entre o público. Yoshi fala ainda sobre a questão do som no teatro : a fala, a voz o texto e a música .

Por fim , o autor escreve sobre o aprendizado do ator e a linda relação entre mestre e discípulo que existe na cultura japonesa. Com Yoshi temos a oportunidade de saber que todos nós podemos alcançar a sabedoria , mas isso só acontecerá no dia em que nos reconhecermos como discípulos.

Errante ou Invisível , Yoshi é inspirador..


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