“Truques do ator”

Diante da agradável notícia que tivemos através de um carinhoso e honroso postal, enviado pelo próprio Yoshi à nós, dizendo que o seu próximo livro “Actor´s triques” ( a letra estava um pouco difícil de ler , então não sei ao certo se o nome é esse mesmo) será traduzido para o português , no ano que vem, resolvi fazer uma análise pessoal dos dois livros de Oida para ver no que ia dar…

Porém o texto ficou tão grande que resolvi publicá-lo em duas partes.

Parte I

YOSHI ERRANTE

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Yoshi Oida tem dois livros publicados pela editora Beca. Pela ordem, respectivamente, “O ator errante” (1998) e “O Ator Invisível” (2001) são livros que deveriam fazer parte da bibliografia de todo ator. Inclusive, poderia ser facilmente lido por leigos no assunto, pela leitura fácil e rápida. Além de poético , Oida também consegue ser didático com exemplos claros de suas próprias experiências como ator.

Em “O ator errante” conhecemos um Yoshi que tem sede de conhecimento e de aprendizado. Oida conta como começou a sua carreira e todos os percalços pelos quais passou; assim como a maioria de nós artistas. É uma leitura leve e possui passagens interessantes como o trecho em que Oida fala da sua dificuldade de se relacionar com os atores ocidentais:

”Os ensaios eram no Mobiliário Nacional, no bairro Gobelins, ao sul de Paris; um lugar frio e impessoal, com muros de pedra concebidos inicialmente para estocagem e exposição de tapetes e tapeçarias. Usava minha roupa tradicional (quimono e hakama), como se estivesse no Japão, e me esforçava para me comportar como um” ator japonês”. Mas esse ator japonês se sentia um monstrengo miserável. Todas as atrizes ou tinham o meu tamanho ou eram maiores do que eu. Os homens pareciam verdadeiros gigantes. No grupo estavam Glenda Jackson, Delphine Seyrig e Michael Londsdale. Diante de todas essas celebridades, eu me encolhia no meu canto, já desgostoso por ter vindo(…)como eu tinha sempre trabalhado dentro do sistema do katá, tanto no teatro tradicional quanto no moderno, que imitava esse mesmo sistema, a improvisação era uma experiência inteiramente nova para mim. E, para piorar ainda mais as coisas, os temas escolhidos também me pareciam estranhos(…) “primeiro vocês são o vento, depois o vento fica mais forte e se transforma em fogo. O fogo destrói tudo e se torna terra firme”

Os atores estrangeiros contorciam-se para todos os lados, rastejando pelo chão, enquanto que sons muito fortes escapavam de suas gargantas. Se o infeliz do pequenino japonês tivesse se arriscado faze ro mesmo, teria parecido, nomeio desses homens e mulheres robustos, um mosquitinho zunindo. Teria sido ridículo. Perguntei-me então o que faria um “ator japonês”. Naturalmente, evoquei os ensinamentos do Nô.(…) O “ator japonês” sentou-se no chão, na posição de Buda, e se concentrou com toda energia de que era capaz, a fim de transformar-se em água e fogo. Enquanto, ao meu lado, todos aqueles corpos enormes de estrangeiros agitavam-se vigorosamente, ondulando ou saltando, eu permanecia sentado. Certamente, isso deve ter provocado um contraste sobremaneira estranho, um japonesinho de quimono, sentado sozinho no meio de toda aquela agitação. Depois da improvisação, os outros atores vieram cumprimentar o “ator japonês”, e disseram –lhe que o que ele tinha acabado de fazer era muito “zen”. O “ator japonês” deu um suspiro de alívio. Por enquanto ia tudo bem.” (Oida, yoshi “Um ator errante” p 24, 25, 26, 27, 28,29).

É possível neste livro, reconhecer as fragilidades e dúvidas de um ator que se lançou em um trabalho novo e depois de muito errar, soube aprender com todas as experiências vividas.”O ator errante”, pode ser considerado um livro de incentivo aos que estão ingressando na profissão de ator e como um estímulo aos que já estão no ofício há muitos anos.

A linguagem informal aproxima muito o leitor de todas as histórias contadas por Oida, de maneira que se torna mais fácil à compreensão da visão de “um ator japonês” (como ele mesmo se chama no livro) diante do teatro e da vida. E o mais interessante, é a humildade com que ele nos ensina certas tradições sem a pretensão de nos “catequizar” com elas, mas justamente por isso, nos encanta e faz querer nos aprofundar em tudo o que ele nos apresenta. Para nós, ocidentais, é muito difícil captar a importância de um mestre. Peter Brook escreveu os dois prefácios dos livros de Oida, e em “Um ator errante” ele descreve lindamente a descoberta desse termo. :

“Você vai conhecer um ator de teatro Nô, disse Jean-Louis Barrault. A porta de seu escritório se abriu e, em vez de uma impressionante figura de quimono que eu mais ou menos esperava ver, o homem que entrou era bastante pequeno, e estava vestido formalmente de terno e gravata. Não falava nada de inglês, nem de francês, mas expressava-se de uma outra maneira. Ele se curvou uma, duas, três vezes - senti que o compreendia. E quando lhe perguntei sobre fazer parte de nosso primeiro workshop internacional, Yoshi concordou inclinando-se. No primeiro dia, estavam reunidos, mais ou menos uns vinte atores e atrizes vindos de diferentes países e para quebrar o gelo e estabelecer uma atmosfera informal, sentamo-nos no chão. Como meus músculos estavam tensos, peguei pra mim uma almofada e percebi que Yoshi sentava-se bem à minha frente, ereto, numa perfeita posição de lótus. Depois de um tempo, mudei de posição, apoiando-me num dos braços. Para minha surpresa, Yoshi fez a mesma coisa. No final do dia, eu estava esparramado, apoiado em meus cotovelos e constatei o pobre Yoshi completamente estirado no chão. Algumas semanas depois perguntei-lhe se ele gostava de ficar deitado como vinha fazendo.”De maneira nenhuma” ele respondeu. “Acontece que você é o mestre. Desde muito pequenos, no Japão, aprendemos que o aluno deve estar abaixo do mestre. Eu não tinha escolha”( Oida, yoshi “Um ator errante” p 10,11).

Encaro “Um ator errante” como uma espécie de biografia do próprio Yoshi, não só por ele contar o início dele como ator, mas também pelas confissões pessoais sobre a sua inexperiência. Essa disponibilidade em se mostrar de maneira tão humana é o que nos possibilita reconhecermos nós mesmos em Yoshi.


Um Comentário to ““Truques do ator””  

  1. 1 Gilberto Martins

    Olá, sou estudante e ator de teatro, na verdade nem gosto de me denominar ator, pois ese termo tem a cada dia mudado pr mim, conforme leio as teorias e tomo consciência e responsabilidade com relação à essa função. Tenho lido bastante sobre o assunto e me interesei por esse livro, penso que é bastante pertinente lê-lo.

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